Acervo Público

Transfiguração

 

GNOSIS: O PROCESSO DE METAMORFOSE DA ALMA

O pesquisador do Esoterismo que deseja conhecer em profundidade o Caminho Iniciático deve ter em mente que diante de seus olhos perscrutadores se descortinarão dois caminhos: o Monista e o Dualista.

O caminho monista, que remonta ao tempo dos antigos povos bíblicos, tem como ponto de partida a ideia de que a Espiritualidade se fundamenta no Santuário Pélvico, conforme nos apontam as Escrituras Sagradas em diversos trechos do Velho Testamento, em particular na seguinte passagem: “Então, Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de Moisés e lhe disse: sem dúvida, tu és para mim esposo sanguinário. Assim, o Senhor o deixou. Ela disse: esposo sanguinário, por causa da circuncisão” (Êxodo 4: 25 e 26). 

Quando o pesquisador acessa as lições e as instruções do caminho monista, pode deparar-se com diversos desenhos e ilustrações semelhantes à figura abaixo.

Figura 1: O caminho monista da Ioga. No ventre encontra-se a força kundalini, situada no vórtice de energia ou chacra correspondente às glândulas sexuais. 

Os textos sagrados monistas referentes ao tipo de ilustração que atrás mostramos apontam para o que no Hinduísmo é conhecido como Kundalini Ioga. Compõem esse conhecimento outros três conjuntos de instruções denominados Hatha Ioga, Raja Ioga e Tantra Ioga. Mas a referida ilustração pode indicar também outras vias de instrução monista. 

Figura 2: Símbolos teúrgicos de invocação das forças-seres cósmicas. Danças místicas culturais e religiosas e suas versões na Wicca, no Espiritismo africano, no Sufismo e nos caminhos New Age.

Algumas dessas vias representadas na figura 2 fundamentam-se na ideia de que a natureza tal qual a vemos ao nosso redor – que se expressa por meio dos seres das matas, das águas, das montanhas, dos grandes bosques, dos espíritos que povoam os santuários e outros lugares na forma de animais – simboliza as forças nas quais a alma humana precisa se integrar e se fundir para formar a Unidade Cósmica e constituir, assim, o Todo-Deus.

Essa ênfase na integração de todas as coisas em uma Unidade é justamente o que caracteriza o Monismo. De acordo com essa doutrina, o Todo se junta ao Mono e desaparece nessa pura união, nessa pura e suprema Unidade. E o homem participa dessa integração por meio de êxtases místicos, de arroubos mediúnicos, enfim, por meio de excitações sensoriais repletas de percepções paranormais.

Os êxtases místicos ocorrem em todas as religiões psíquicas, de natureza da fé emocional e sensorial, cujas práticas levam aos arroubos astrais. Tais fenômenos podem ser explicados como uma variante do processo monista chamado projecionismo, que demonstramos na figura seguinte.

Figura 3: Projecionismo ou viagens astrais são apontadas por alguns grupos monistas como a fonte de sua maestria esotérica. A linha azul que conecta o corpo projetado com o físico sedia-se no ventre. O projecionismo também é um dos modos que as ordens monistas utilizam para trabalhar com a força sexual da pélvis. 

Todos esses processos monistas iniciáticos têm por finalidade remodelar o eu, o ego e o seu sistema sutil de expressão corpórea. O santuário pélvico – onde o ser humano guarda todas as suas manifestações milenares – passa, segundo tais métodos, por essa remodelagem que, ao final, provoca uma experiência mediúnica chamada pelas correntes de ensinamento New Age de "presença eu sou". 

No Budismo, essa experiência designada "presença eu sou" tem o nome de Samadhi, também adotado por algumas correntes monistas exatamente porque unem com o Budismo a ideia de mestres ascensionados. Assim, elas definem Samadhi como o estado supermental em que Deus é o homem e o homem é Deus, e ambos, numa união mística suprema, podem dizer: "eu sou o conhecedor e o conhecimento sou eu". Segundo tais correntes, o “eu” desse indivíduo, que no momento “eu sou” sente-se profundamente integrado ao todo, torna-se um Eu Divino. Mas se olharmos de perto essa experiência suprassensorial notaremos que ela é uma percepção dentro do espectro da alma dos sentidos, e o que nela ocorre considerado “espetacular” nada mais é que o resultado da manipulação demonstrada na figura 3. 

O homem que experimenta essa sutil conectividade com o cosmos [desta natureza quedada] por meio do êxtase do Samadhi não pode ser considerado um LIBERTO; ele não é um LIVRE PENSADOR, e não se pode dizer que seu carma, isto é, seu passado existencial, foi remodelado. Pois nada disso é possível no tocante aos reais aspectos da natureza humana comum. Portanto, esse ser que passou pelo Samadhi permanece preso ao mundo material de sofrimento e continuará manipulado pelas forças cósmicas negativas. A sua libertação só será possível pela via iniciática dualista, que proporciona a demolição do carma e do “eu”.  

Na linha dualista e gnóstica de iniciação, a base do desenvolvimento espiritual é a ideia de que o reino cósmico e todo o reino material encontram-se na sua essência caracterizados como imperfeitos e configurados por uma força criadora menor, o demiurgo, que não possui o verdadeiro e pleno poder deífico. 

Esse deus menor, chamado demiurgo pelo Gnosticismo, aparece em muitas de suas manifestações se mostra como um sábio, um mestre repleto de conhecimento esotérico e um guia de elevada estatura espiritual. No entanto, tais “mestres” em declarações registradas em meios literários, em blogs e mensagens da internet, confessam estar ainda presos ao carma, à matéria e a este reino material imperfeito. 

É comum dirigirem-se a nós pessoas que durante muito tempo (algumas por mais de quarenta anos) professaram o caminho monista e praticaram as suas iniciações. Elas adquiriram muitos livros e participaram de numerosos encontros, nos quais eram reveladas de modo exclusivo e especial as mensagens dos seres cósmicos demiúrgicos. Ao longo de suas pesquisas, tais pessoas migravam de um movimento para outro, procurando participar naquele que melhor lhes respondesse as indagações mais íntimas da alma e correspondesse às suas expectativas espirituais. Apesar de terem alcançado resultados interessantes nessa jornada monista, esses pesquisadores permanecem inseguros quanto ao seu desenvolvimento espiritual e seu futuro iniciático.

Há outro grupo desses caminhantes que, ao contrário, se dizem satisfeitos com sua jornada monista. Eles afirmam ter encontrado o Samadhi, por meio do qual contornaram de modo brilhante o carma e a conduta mental e desenvolveram sua vida espiritual. Na opinião deles, seu longo esforço resultou em êxito e foi logrado o objetivo iniciático; assim, chegaram à plenitude espiritual.

É para os buscadores da Verdade insatisfeitos com os resultados do caminho monista que propomos uma ampliação de conhecimentos e anunciamos uma segunda forma de Iniciação: a Gnóstica Dualista. É essa Iniciação que desde 2001 vimos mostrando para o Ocidente configurada como Escola Jessênia de Mistérios. 

Enquanto a iniciação monista baseia-se no despertar de certas forças pélvicas, a Gnosis fundamenta a sua Iniciação nas forças do coração. Jesus a mencionou quando disse a seus seguidores para manterem-se ligados ao Novo Testamento do seu sangue. Já os essênios do Mar Morto falavam de uma Aliança da Circuncisão Sexual e de uma Nova Aliança. Eles praticavam a Iniciação da Nova Aliança, que consistia na circuncisão do prepúcio da tendência ao mal no coração. 

No coração há uma força espiritual mais importante que a da pélvis, pois ela é capaz de reconectar o homem com o Reino da Luz e da Verdade. Esse órgão e o peito formam um sistema de estruturas corpóreas fundamentais que é como uma ponte para essa reconexão. A figura abaixo nos auxilia no entendimento dessa característica do Caminho Gnóstico. 

Figura 4: A base corpórea do Caminho Dualista Gnóstico.

Na figura 4, a Cruz e o Abraxas (o corpo humano com cabeça de galo) formam o centro da simbologia dualista. A Cruz deve ser entendida como o lugar onde Jesus passou por um sofrimento que não tem nenhuma relação com o sofrimento cármico. A dor da Cruz é como o útero onde as possibilidades divinas irão fecundar e gerar a Libertação. Por isso, no Jessenismo estudamos o Livro Bíblico de Jó. Apreciamos, no capítulo 5 desse livro, a ideia filosófica algo monista, proposta por um amigo de Jó, de que o homem caiu na miséria e no mais profundo padecimento porque havia cometido erro e, portanto, encontrava-se diante de Deus como um homem injusto. Mas a dor de Jó nada mais era senão um prenúncio da dor de Jesus na Cruz, isto é, significava exatamente o coração se tornando o útero da Libertação. 

A Libertação é também um processo de Iluminação, daí haver na figura 4 um peito humano com cabeça de galo. Todos sabem que o galo é o anunciador do amanhecer do dia e da luz, bem como do fim da escuridão noturna. Esse anúncio é um canto profético, tal como o Salmo bíblico de Davi em que esse grande rei de Israel coloca em palavras a sua visão do tempo futuro coroado pela manifestação de um imenso e completo Anjo descido das Alturas acima do reino cósmico. Esse Anjo tem a missão de entrar no reino vegetal, na seiva dos bosques, na madeira da Cruz, no lenho híbrido de oliveira e nardo, formulando a partir dessa misteriosa mescla alquímica o poder iluminador das Gotas da Unção tríplice. 

Figura 5: A tríplice Unção, a descida do Messias até a seiva da Cruz, a Casa dos Salmos, o Besouro da Transfiguração, o Cálice terapêutico e o corpo ígneo do Transfigurado.

Quem já se dedicou à leitura dos documentos da biblioteca egípcia gnóstica de Nag Hammadi, descoberta em 1945, lembrar-se-á do Evangelho de Filipe, onde se lê: "Deus fez tudo em Mistério: um Batismo, uma Eucaristia, uma Unção, uma Unção de Redenção e uma Unção de Câmara Nupcial". As três Unções formam um Tríplice Mistério. A Unção de Redenção também é chamada de Unção de Transfiguração

Os documentos da biblioteca de Nag Hammadi partem do princípio de que, no Paraíso, o Homem possuía uma magnífica figura de Anjo, era uma criatura luminosa, dotada de beleza majestosa e integrada ao Reino da Luz. Mas ao cometer o erro da Queda, ele perdeu essa figura, desfigurou-se, e adquiriu um corpo material perecível e imperfeito, sujeito a doenças, a dor e a todo tipo de padecimento. Para recuperar a sua condição angélica paradisíaca, o homem precisa, portanto, transfigurar-se. 

Figura 6: O coração do homem desfigurado, seus sete metais ímpios, sua ligação com o reino da fantasmagoria, a Gueenah; o Messias, que desce aos vegetais para misturar seiva e sangue, criar o remédio curador, instituir os Santos Mistérios, dar ao homem terrestre o Bastão Sacerdotal, a Transfiguração e a Figuração Angélica do princípio. 

Além da Biblioteca de Nag Hammadi e da Bíblia, também os livros dos alquimistas trazem a ideia de que a Transfiguração é um processo sonoro e melódico. Alguns alquimistas comparam o coração humano com uma casa dentro da qual o praticante dos segredos da Metamorfose, da transformação dos metais, poderá entrar para adquirir o poder de tudo transformar e transfigurar. Eles falam de sete metais que deverão ser trabalhados, e apontam para 1 Coríntios 13:1-2: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria”. Segundo uma leitura verdadeiramente esotérica dessa passagem bíblica, o Amor a que se referem os cristãos dualistas (como o autor desse cântico) e os alquimistas não é um sentimento erótico, ou humanitarista, um amor emocional, em que exercemos nosso potencial de bondade, natural ao homem comum, e sim um anelo pela libertação, pelo divino, que gera a fala, o canto e a figuração angélica paradisíaca

Um coração em chamas ardentes, como se vê na figura 6, significa para nós, cristãos gnósticos, muito mais que a Religio Cordis (Religião do Coração) concebida pelo sufi Ibny Al’Arabi e pelo místico católico São João da Cruz a respeito do Amor Divino.

Na Comunidade Jessênia, temos muito apreço por esses dois personagens do esoterismo. São João da Cruz é um religioso que pode ser retirado do contexto católico, pois que se aproxima de alguns conceitos cabalísticos e esotéricos cristãos. Todavia, na pena dos mestres jessênios, os escritos de São João da Cruz revelam uma muito mais profunda visão bíblica, fato que o distancia dos teólogos aristotélicos e agostinianos ligados à Religio Cordis.

A Religio Cordis foi uma corrente mística proveniente do Jansenismo,  que ganhou expressividade na Bélgica e na França entre os séculos XVI e XVIII. O Jansenismo, movimento teológico situado entre o Catolicismo e o Protestantismo, originou-se das ideias do bispo católico Cornelius Otto Jansenius (1585 -1638) publicadas na obra Augustinus. Seus pontos de apreciação da doutrina ensinada pelo cristão católico Agostinho de Hipona (354 - 430) tornaram-se tão radicais que acabaram por chegar muito perto da teologia dos protestantes. Foi no Jansenismo que surgiram os chamados emblemas da Religio Cordis, desenhos de corações em chamas representados de diversas formas e em diferentes ambientes simbólicos. 

Dois nomes, Paul Kaym e Jacob Boehme, que participaram dessa corrente de simbolismo do coração ardente, conseguiram ultrapassar o ambiente católico e protestante da Religio Cordis e muito se aproximaram da ideia que representamos na figura 6 (o coração do homem desfigurado, com seus sete metais ímpios e ligado ao reino da morte, à Gueenah; e o coração em chamas, anelante pela libertação e pelo Reino de Deus). 

Já Ibny Al'Arabi é visto por nós como alguém do sufismo islâmico que apresentou alguma base aristotélica próxima da Religio Cordis sem, contudo, pertencer a essa corrente. Seu pensamento sunita, apesar de sobressair-se no contexto do monismo islâmico, não transcende o dos demais sufis, entre os quais Rumi, fundador do movimento dos dervixes, ou dançarinos místicos. O fundamento filosófico desses dois árabes é puramente aristotélico e monista, daí por que os representamos na figura 2 por meio de um sufi dançarino.

O que nos afasta da Religio Cordis é o contexto teológico puramente agostiniano católico e protestante em que se insere esse movimento ao representar o amor como uma força cardíaca emocional comum, eleita para conceber as ideias humanitárias de bondade e de caridade. Conforme essas ideias, o homem tem no coração diversas tendências emocionais, algumas inclinadas ao que é imperfeito e imoral, outras propensas ao que é nobre e bondoso. Essas tendências são uma só coisa: a própria natureza humana, e fatalmente essa coisa única tenderá para o mal se Deus não agir nela. Em agindo Deus nesse coração, as tendências podem sofrer um desvio para o que é bondoso e verdadeiramente humano. Ora, não é isso que vemos na figura abaixo.

  Figura 7: O coração dual que concebe o divino e que, no entanto, permanece lutando para evitar que a sua segunda natureza, a natureza das trevas, se mova nele. Desenho de Paul Kaym.
 

 

Segundo a Gnosis, o Amor é uma força e um princípio não emocional totalmente oriundo da natureza divina. Quando ele surge no coração humano, precisa combater duramente a outra natureza ali sediada: a força do amor natural, de origem sentimental, isto é, de origem na alma astral comum do homem. Esse amor sentimental é produto das atividades dos metais ímpios cobre e mercúrio, representados na figura 6 pelo coração negro.

As figuras 6 e 7 são, para nós jessênios, duas versões do mesmo simbolismo do coração humano como sede de duas naturezas: a natureza comum, resultante da Queda e expulsão do Paraíso, e a natureza divina angélica que Adão possuía enquanto era cidadão plenamente integrado ao Reino do Paraíso.

A doutrina do Coração Ardente e do Peito Abraxas (ver novamente as figuras 4 e 5) tem origem na Gnosis valentiniana, surgida entre os anos 120 e 160 d. C. Essa doutrina foi adotada no século III por Mani persa, fundador do Maniqueísmo, e chegou ao gnóstico cristão Prisciliano de Ávila (340 a 385), contra quem se levantou Agostinho de Hipona. Depois de passar para o Priscilianismo, a mesma doutrina peregrinou entre os Paulicianos (século VII), os Bogomilos (século X), os Cavaleiros Templários (séculos XII a XIV) e os Cátaros (séculos XII e XIII).

Em diversas oportunidades falamos dos desenhos dos grão-mestres templários esculpidos na parede do Castelo de Chinon, nos quais aparece a imagem do Coração Ardente e de diversos símbolos próprios do Maniqueísmo.

Figura 8: Um Abraxas valentiniano em que aparecem dois corações no peito de uma figura humana híbrida. Um dos corações é ligado à cabeça animal equina.    

A ideia de que no coração humano habitam dois espíritos, um da Luz e outro das Trevas, já aparece no ensino dualista dos Essênios de Qumran, mais precisamente no documento 1QS, onde lemos: "Até agora os espíritos da Verdade e da falsidade lutam no coração dos homens, e eles caminham tanto na sabedoria quanto na insensatez. De acordo com a porção da Verdade que têm em si, o homem odeia a falsidade; e de acordo com a sua herança do reino da falsidade, ele é ímpio e abomina a Verdade (1QS IV)"

O Jessenismo é um Gnosticismo cristão que muito se inspira no Dualismo essênio de Qumran. Ele se configura como um Dualismo fundamentado na ideia de Yahad Razim ou Escola de Mistérios, bem como na doutrina dos dois espíritos do coração, ambas as coisas ensinadas na Comunidade descrita no documento de Qumran 1QS, citado no parágrafo anterior.

Uma Yahad Razim ou Hever Razin (Escola de Mistérios), deve centrar o seu Rito Iniciático nos Sagrados Mistérios, e é por essa razão que Qumran regulou toda a sua vida discipular diária para poder realizar seus banhos batismais nas piscinas sagradas chamadas Miqvoth. Depois dos banhos lustrais, os essênios praticavam uma Eucaristia coletiva que passou para o Jessenismo com o nome de Refeição Sagrada. Tanto quanto em Qumran, no Jessenismo essa Refeição Sagrada ocorre em grupos de iniciados organizados em Círculos de Doze Discípulos. O mesmo fez Jesus quando reuniu seus Doze Discípulos; e também Mani persa, no século III, quando organiza os seus alunos em grupos duodécuplos.

 Figura 9: O Batismo e a Hever Razin Essênia e Jessênia.
 Figura 10: Qumran e sua miqváh ou piscina batismal.
 Figura 11: Qumran e a doutrina dos corações ardentes.
 

Para enriquecer nossas explanações sobre as Hever Razin e a Doutrina dos Corações Ardentes, usaremos uma técnica judaica cabalística de associação e adaptação do texto bíblico, chamada Midraxe, de modo a construir e interpretar esotericamente os ensinamentos contidos nas Escrituras Sagradas. Aplicaremos essa técnica em algumas passagens do Velho e do Novo Testamento fazendo a seguinte construção: "Se hoje ouvirdes a voz do Espírito não endureçais os vossos corações (Hebreus 3: 15) tornando-vos serpentes surdas que tapam os ouvidos (Salmos 58: 4). Mas se abrirdes os ouvidos, então ouvireis as Palavras salvadoras que andam por toda a Terra e que chegaram até os rincões distantes (Romanos 10: 18). Aos que ouvirem, o amor cintilará em seus peitos e em seus corações puros"(1ª Pedro 1: 22).

Por diversas vezes repetimos esse Midraxe bíblico no início dos trabalhos do Jessenismo Ocidental em setembro de 2001. A sua base doutrinal mais antiga é essênia e está representada mais precisamente na figura 11, mas também na figura 10.

Nas figuras 9, 10 e 11 notamos a presença do simbolismo das gotas de água e de óleo. Damos a essas gotas o nome aramaico de Nituptas, baseando-nos na Gnosis Mandeana, ou seja, na Gnosis do grupo batismal dualista existente entre o sul do Iraque e o sudoeste do Irã, cujas Escrituras Sagradas são denominadas Ginza. Na figura 9 fizemos correlação do Ginza com dois documentos de Qumran: 1QS e 1QH.

É preciso observar o caduceu representado na figura 9 com a ajuda do simbolismo da figura 5. O caduceu, que representa Hermes, deus da Transfiguração, é processado através do Mistério da Cruz. Outro modo de apresentá-lo é por meio das Lendas do Santo Graal, como se pode ver nas figuras a seguir.

Figura 12: A Aliança Sexual do Velho Testamento, a da Ioga, e a Aliança do Graal ou do Novo Testamento.
Figura 13: Sangue, hemoglobina, clorofila, o ferimento do Graal, a Força Salvífica Transfigurística e a Luz da Iluminação.
 Figura 14: O cordão prateado, o fígado ferido e lustrado, o coração ardente, sangue e seiva da Cruz, a música sacra, o corpo vital e a morte do homem profano.

As figuras 13 e 14 foram construídas para simbolizar o processo do despertar do Caduceu de Hermes a partir do Batismo e da Refeição Sagrada, como mostrado também na figura 9. A diferença é que a figura 9 baseou-se na doutrina essênia e mandeana, enquanto as figuras 13 e 14 tiveram como base o esoterismo dualista das Lendas do Santo Graal, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e um Salmo Maniqueu.

Na figura 14 temos a representação de alguém que passou pelas experiências mostradas na figura 13. O Mistério da Cruz deu-lhe a possibilidade de tornar-se um Cavaleiro do Graal e, assim, obter um oitavo e mui alquímico princípio luminoso sanguíneo. Esse princípio sanguíneo o faz semelhante ao Homem do Paraíso, que guardava angelicamente uma profunda ligação com o reino verde, isto é, com as forças divinas que alimentavam os Santos Anjos e Adão antes da Queda.

Quem passou pela experiência representada pelo simbolismo da figura 13 ligou-se a uma Hever Razin (}yizar rebex). A palavra Razin (Mistérios) termina com a letra nun-n} indicadora do Mistério do Tempo de duração da atuação de uma Escola de Mistérios, a saber, 700 anos. Por isso as datas colocadas na figura 14 indicam o espaço de tempo transcorrido desde 1321 até 2021. Esse espaço de setecentos anos marca a profecia cátara de Belibastes, o último perfeito do Catarismo. Ao ser colocado em uma fogueira, ele proferiu a seguinte sentença profética: "Após setecentos anos o loureiro reflorirá". De fato, o senhor Jodachay Bilbakh, fundador do Jessenismo em sua versão aquariana de Escola de Mistérios, que durará de 2001 a 2701, é a encarnação de Belibastes.

Não é apenas a letra hebraica nun-n} que dá ao título Hever Razin uma conotação cabalística dualista especial, mas também a letra Ret-x na palavra Hever, com valor 8. No hebraico moderno Hever significa grupo musical. Entretanto, a letra Ret-x, de valor 8, confere a essa significação um sentido muito esotérico, ou, como se diz em Cabaláh, dá à palavra Hever um significado Sod que deve ser entendido como um Sublime Segredo, um mui Sagrado Mistério.

O grupo musical designado pela palavra Hever-rebex acha-se representado na figura 5. Ali ele está com sete membros, mas pode admitir mais oito membros, todos eles implicados na produção da nova luz sanguínea verdejante. Essa nova luz se sobrepõe à dos sete metais ímpios e habita noturnamente o fígado, fazendo-o integrar-se às forças alquímicas do Batismo e da Refeição Sagrada de tal modo que, de noite, cada um dos membros do referido grupo musical sai do sono natural do homem comum e entra em um espaço onírico onde os sons melódicos se tornam uma orquestra paradisíaca especificamente dotada da capacidade de proporcionar experiências relacionadas com os altíssimos segredos da vida angélica.

Esse espaço onírico especial onde o gnóstico adormece é chamado por nós jessênios de Sunyáh, justo porque ele é inteiramente povoado de Anjos Santos que se apresentam em tão elevada configuração deífica abstrata que deles a mente concreta, formada de pensamento, vontade, sentimento e memória racional, nada percebe, pois permanece em um total vazio perceptivo.

É justamente por causa dessa configuração misteriosa que a tradução da palavra Hever é comparável à das palavras hebraicas Heder-redex, Hodar 'Ohel-leko) radAx e Hodar Shenáh-han"< radAx, que significam espaço ou sala escolar, refeitório e dormitório. A letra Ret-x das palavras Hever e Heder faz jogo cabalístico com a letra zain-z da palavra Razin (Mistérios). Como resultado desse jogo achamos o número 15, apresentado no pentágono da figura 9, mas que tem outras implicações cabalísticas relacionadas às Árvores do Paraíso e aos Anjos que delas se alimentam.

O pesquisador mais inexperiente deve ser informado que, das muitas árvores misteriosas existentes no Jardim do Éden, a mais importante e sob a qual as demais existem, é a Árvore da Vida denominada em hebraico Ets Haim. O Judaísmo esotérico a representa como uma Árvore de Dez Esferas, ou Dez Sephiroth, onde uma décima primeira toma o nome de Daat, ou Gnosis (figura 15). 

Do ponto de vista judaico, próprio para o entendimento do Velho Testamento, a Ets Haim é uma planta misteriosa de cujos ramos saem Livros Sagrados que contêm letras, números sons e cânticos surgidos de uma operação deífica que alicerça e alimenta a Vida divina de todos os seres paradisíacos. Comer desses frutos significa alimentar-se de princípios deíficos que dinamizam em nós a Transfiguração.

 
Figura 15: O jogo cabalístico e numérico das palavras Heder e Hever segundo o qual está configurada a Escola Gnóstica Jessênia de Mistérios. Nesse espaço escolar sagrado surgem as operações transfigurísticas que proporcionam ao jessênio o seu aspecto de Vida angélica paradisíaca.
 

Na figura 15 podemos ver representada a Ets Haim que, em seu aspecto Heder, ou Sala Escolar, mostra um livro de onde saem letras, números e sons melódicos. Uma cantora que se alimentou no REFEITÓRIO, isto é, na Mesa de Eucaristia, emite sons angélicos enquanto dorme e se locomove para a região da Esfera Netsáh, também chamada de Esfera da Vitória sobre a Morte. Outro nome dessa Esfera, já o dissemos atrás, é Sunyáh

Caro leitor e pesquisador, mostramos-lhe até aqui alguns dos pontos básicos do ensino esotérico dualista jessênio. Tivemos que abordá-los mui superficialmente, e é em razão disto que o convidamos a continuar investigando o que se pode aprender e praticar numa Hever Razin, ou Escola de Mistérios.