Acervo Público

Yazidis

YAZIDIS

UM POVO GNÓSTICO ORIENTAL DE  ELEVADA NOÇÃO ANGELOSÓFICA

INTRODUÇÃO

Muitos nos perguntam a razão de o Hierofante da Escola de Mistérios Jessênia, Mebaker Jodachay Bilbakh, viajar sem perspectiva de retorno a uma vida normal, desde 1986, pelos desertos do Oriente Médio e Ásia, a região historicamente chamada de Vale do Crescente Fértil.

Coloquemos de lado as demais razões que colocam o Mebaker nessa peregrinação pelos desertos e foquemos na mais importante: todos os grandes sábios, do passado e do presente, vivem ou já viveram de forma nômade percorrendo rotas desérticas normalmente intransitáveis e desconhecidas até mesmo da maioria das autoridades militares do Oriente.

Nos livros bíblicos ou apócrifos encontramos sempre a descrição dos profetas, homens que vivem no deserto, a exemplo de Elias e João Batista. Portanto, a vida no deserto coloca o Mebaker Jodachay no contexto dessas almas proféticas.

Se consultarmos o livro profético do Apocalipse, capítulo 12, encontraremos a descrição exata de como um profeta e sua Comunidade se escondem nos desertos. No verso 6, está escrito: “E a mulher (a Igreja) fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante 1.260 dias”.

No deserto, o Mebaker Jodachay encontrou muitos sábios gnósticos e visitou suas pequenas comunidades nômades, formadas por seletos grupos de alunos preparados para enfrentar as condições de uma vida errante e entender o significado da entrega total à vida espiritual, separada dos recursos das cidades. Além dessas pequenas comunidades, o Mebaker também contatou diversos povos de elevado saber gnóstico e praticantes de religiões esotéricas cujo corpo doutrinário agrupa uma variada gama de ensinamentos iniciáticos. É o caso do povo yazidi, habitante do Curdistão, território curdo que se estende da Turquia até o Iraque, Síria, Irã e Armênia. 

Os curdos são, segundo estatísticas, em torno de vinte e seis milhões de pessoas sem território próprio, razão de precisarem lutar ferozmente em algumas regiões para garantir seu espaço de sobrevivência. A maioria é muçulmana sunita, mas em seu meio convivem algumas minorias, como a cristã e a yazidi. A esta última dedicaremos este escrito. 

Até a Primeira Grande Guerra e a queda do Império Otomano, em 1922, os curdos viviam em grandes grupos nômades criadores de cabras e ovelhas. A fonte de sua economia consistia na produção e comercialização de lã, o que lhes supria as necessidades mínimas de uma vida livre pelas montanhas da vasta região que compreendia a Armênia, Síria, Turquia, Iraque e Irã. Depois dessa época, essa região foi dividida em governos independentes e os curdos não mais puderam mover-se livremente.   

Os curdos não sunitas chamados yazidis carregam traços de antigas religiões védicas da Índia, mas em suas peregrinações conviveram com o estrato gnóstico do Judaísmo, do Sufismo, do Zoroastrianismo, do Mitraísmo, do Maniqueísmo e do Cristianismo. O centro religioso do povo yazidi é a cidade sagrada de Lalish, norte do Iraque, onde o clero realiza seus ritos gnósticos. 

O contato do Mebaker Jodachay Bilbakh com os yazidis foi em 2009, quando se dava uma incursão dos jessênios orientais pelo Azerbaijão e a Armênia, país onde se encontram inúmeras estelas chamadas khachkares, cujo simbolismo fundamental é a cruz floral.

 Numa de suas expedições, o grupo do Mebaker avistou algumas crianças passeando a cavalo, as quais trajavam vestimentas diferentes das usadas pelos habitantes locais. A aproximação não foi fácil, pois os pequenos yazidis eram muito retraídos, comportamento decorrente da severa perseguição sofrida por suas famílias, de ramo turco, no ano 2000. A língua também era um obstáculo, já que os curdos não falam o árabe, mas um dialeto derivado do persa, o que confirma serem eles uma raça próxima da iraniana, portanto, não é árabe.

Depois de um mês, o grupo de crianças começou a aproximar-se das outras do acampamento do Mebaker. Constatado que se tratava do povo yazden, os gnósticos praticantes do Yazidismo, um intérprete iniciou a abordagem para estabelecer contato.

A Religião Yazidi é monoteísta e tem raízes nas religiões mesopotâmicas e persas. Ela também possui elementos pré-cristãos e judaicos, de onde se origina a ideia de que Deus, no início da Criação, colocou a Terra sob a proteção de sete divindades angélicas, dentre elas o Anjo-Pavão, Melek-Taus, que tinha a particularidade de se apresentar como Miguel, o Anjo da batalha contra Satã (Shaitan, na língua do Al Corão). 

Segundo o Yazidismo, os Anjos descem de camada em camada dos Céus até a Terra. Em cada camada abaixo e mais próxima da Terra, eles tomam partes das trevas para nelas trabalharem a substância que compõe a alma do ser humano. Quando um Anjo se aproxima da Terra, ele toma para si tantas trevas que corre o risco de ser confundido com o próprio Satã.

Para os yazidis, Melek Taus é Miguel; para os xiitas gnósticos, ele é o Anjo Gabriel, cuja imensa asa direita é mergulhada no mais profundo Céu divino, e a asa esquerda é escurecida porque ela entra nas trevas, onde o homem se perdeu. Esse entendimento em comum irmana os yazidis e os xiitas gnósticos. Mas o islã sunita não consegue imaginar um Anjo com sua asa direita branca, luminosa, mergulhada nas alturas do Pleroma e sua asa esquerda que se mostra negra por estar mergulhada no mundo humano. Essa é a razão de os sunitas terem os xiitas gnósticos e yazidis como adoradores de satã.

Na mitologia do Yazidismo, Melek Taus também assume um perfil semelhante ao da figura maniqueia do Homem Primordial (o Adam Kadmon), que desceu para salvar as partículas de Luz cativas das trevas e de seus escuros demônios guerreiros. Mas em dado momento, ele também cai na escuridão, ficando em uma condição que lhe permitia apenas emitir um pedido de socorro para o Pai da Grandeza. 

Na Gnosis Xiita, fortemente influenciada pelo Zoroastrianismo e pelo Maniqueísmo, o Anjo Gabriel é mostrado de modo semelhante a Melek Taus, ou seja, como um Anjo de Luz que, à sua esquerda, pode assumir a figura do homem quedado, para nas trevas realizar seu trabalho angélico em prol da humanidade que precisa ser resgatada.  Por isso, em seu lado esquerdo ele é chamado Gabrion; o sufixo on designa tempo, então, é o mergulho de sua asa esquerda no tempo. Do lado direito, ele realiza um trabalho de Anjo de Luz em conjunto com os Hierofantes, portanto, é chamado de Gabriel; o sufixo el, designa seu estado angélico, seu esplendor andrógino. Pode-se dizer que Melek Taus é um Anjo híbrido, que ora surge como Gabriel, ora como Miguel, e ainda como Metatron ou Adam Kadmon. No Mito do Melek Taus, ele observa as trevas ao redor de si e a sujidade negra de uma de suas asas, quando então ergue suas mãos e suplica por perdão, enquanto que de seus olhos são derramadas lágrimas que apagam as chamas do inferno demiúrgico em que a Terra encontra-se mergulhada.

Para nós, cristãos gnósticos, altamente influenciados pelo Maniqueísmo, todas essas faces de Melek Taus/Gabriel aparecem como Jesus na Cruz, com a asa branca para cima recebendo a Corte de Hierofantes; e a asa escura para baixo, apresentando os pastores, isto é, os agentes da Ekklesia criada pelos Hierofantes, os quais buscam as ovelhas humanas perdidas no lamaçal das trevas.

Na Comunidade Jessênia, esse tema, que diz respeito à Angelosofia e à Astrosofia, é tratado nos Graus 4º (Etomaikoí), 17º (Rosacrucianismo Jessênio) e 20º (Fitoastroterapia: a Alquimia que investiga a interação dos Anjos e dos Astros de Mistérios com a camada verde da Terra, com a água, com a seiva e com o sangue). Essas duas ciências de Mistérios são estudadas nas obras de Jacob Boehme, do Irmão L.C.N, de Max Heindel, de Jan van Rijckenborgh, e em especial nas Escrituras Sagradas maniqueias, mandeanas e nas tradições yazidis.

Mergulhemos, pois, no conhecimento acerca dos sábios gnósticos dos desertos do Oriente, enfatizando o povo curdo praticante do Yazidismo.

NOTA DO REDATOR

A Escola de Mistérios Jessênia tem grande respeito e amor pelo Oriente e suas magníficas Comunidades Gnósticas, em particular as que se consideram livres para buscar inspiração nas correntes universais do Cristianismo Gnóstico, do Maniqueísmo e do Gnosticismo Judaico (principalmente o dos essênios).

O Jessenismo é uma corrente da Gnosis Universal fortemente influenciada pelas grandes Escolas de Sabedoria da Babilônia, da Pérsia, da Palestina e do Egito, Sabedoria esta que se perpetuou no Catarismo, no Priscilianismo e no Rosacrucianismo, dos quais a Escola Jessênia é continuadora nesta Era de Aquário.

Desse modo, o Jessenismo e o Yazidismo têm raízes em comum: o Zoroastrianismo, o Essenismo, o Maniqueísmo e o Cristianismo. Esses laços fraternais foram reconhecidos pelo Mebaker Jodachay Bilbakh, em 2009, quando contatou os yazidis no Azerbaijão e na Armênia (no território de Nagorno-Karabakh). 

Quando o Mebaker, que nunca teve preconceito religioso ou racial, se aproximou dos yazidis, já conhecia sua bela doutrina gnóstica e lamentava a perversidade e o despropósito dos inimigos desse povo, como os atuais sunitas formadores do Estado Islâmico, que consideram satânica a doutrina yazidi.

O grande apreço da Comunidade Jessênia pelo Gnosticismo Yazidi e pelo Mandeano nos leva a um carinho especial pelo Iraque, e muito nos entristece a situação desse país muito ferido pela guerra. Do mesmo modo, respeitamos o Iran, a Síria, a Armênia, a Geórgia, o Azerbaijão e a Ucrânia, terras de cristãos e de outros povos em cujo passado gnóstico se encontra a identidade do pensamento filosófico e esotérico da humanidade atual.

A riqueza espiritual dos povos do Oriente Médio e Oriente Asiático, bem como do Egito e da Etiópia, é um bem de que a humanidade não pode abrir mão. Nesse sentido, pedimos permissão à memória, à história e ao saber desses povos para divulgar essa riqueza, com o devido reconhecimento e valorização. 

A religião dos irmãos gnósticos yazidis toca de perto os fundamentos simbólicos da Verdade que foram os elementos formadores do espírito do Homem Original, que vivia no Paraíso antes do acidente da queda. Desses símbolos, damos especial destaque ao pavão e às espirais.

Quando falamos do simbolismo das espirais, devemos incluir em nossos estudos outros povos sábios, como os celtas, os muíscas da Colômbia Andina, os aimarás do Peru e da Bolívia, os guambianos, os incas, os astecas e diversas outras antigas nações americanas.

Percebe-se, portanto, que a Religião Yazidi tem fundamentos universais, eternos e verazes, caracterizadores também de outras doutrinas. Desse modo, a permissão que solicitamos à história dos povos do Oriente tem o objetivo de elevar o Yazidismo ao nível de Gnosis Universal e contribuir, ainda que em pouca monta, para dignificar essa Religião de Mistérios e difundir sua beleza.  

O Brasil é uma pátria magnífica que ainda precisa enriquecer as suas qualidades e aprender a harmonizá-las com sabedoria, aplicando-as segundo as aspirações de paz entre os povos. Nosso país tem se esforçado nesse sentido. Hoje, nós, brasileiros, podemos demonstrar que somos capazes de aprender com os povos perseguidos e detentores de tradições milenares. Na presente Era de Aquário, a alma brasileira humildemente se abre para todas as possibilidades que signifiquem progresso e bem-estar da humanidade.

A Comunidade Jessênia do Ocidente compõe-se principalmente de brasileiros e colombianos, sociedades que buscam os ideais mais elevados de nação ordeira e pacífica. Assim, dispomo-nos a ajudar o Oriente dignificando os povos que lá vivem, não pelo lado noticiado na mídia, mas por sua riquíssima tradição gnóstica milenar, sua cultura formada de grandes camadas construídas por inúmeras gerações, sua alma simples, que as guerras feriram sobremaneira, mas não conseguiram fazê-la perder a sabedoria e a espiritualidade.

Aqui, da distante América do Sul, os jessênios suplicam pela sorte de seus irmãos gnósticos, os yazidis. Que a guarda divina os proteja! Que Deus os abençoe em sua tremenda luta pela sobrevivência! 

Belo Horizonte, 18 de julho de 2019.     

AS ORIGENS DOS YAZIDIS E DO YAZIDISMO

Os curdos, em especial os yazidis, são povos milenares e sempre caminharam livres e de forma nômade pelos territórios da antiga Anatólia, terra de onde se originou a Religião de Mistérios da antiga Grécia. Durante milênios, os yazidis tiveram contato com sábios da Índia, Pérsia, Babilônia e Palestina, o que se pode constatar estudando com cuidado a sua religião monoteísta.

O primeiro sinal esotérico da Religião Yazidi é a sua particular apreciação do dinamismo ritualístico que tem como elemento central o simbolismo do fogo, demonstrando uma herança do Zoroastrianismo. 

O Zoroastrianismo fala de uma manifestação de Deus como Deidade da Luz (Ahura Mazda) ligada ao Sol, a seus raios, que podiam se manifestar na terra por meio da madeira tornada ígnea pelo atrito. Isso significa que as chamas sagradas do Sol, nos primórdios da Criação, entraram em nosso planeta e fixaram-se nos vegetais.

Os povos que vivem nos desertos e enfrentam as suas adversidades, muito necessitam, durante a noite, da madeira para se aquecer. É natural aos que passam por essa experiência ter a exata compreensão de que a madeira guarda uma parte do Sol que pode manifestar-se à noite na forma de fogueira aquecedora.

As Religiões da Luz, dentre elas o Zoroastrianismo, o Maniqueísmo, o Cristianismo e o Yazidismo, têm uma forma especial de compreender o simbolismo da chama obtida do óleo das plantas ou da sua madeira. O Zoroastrianismo, em particular, ensina que o fogo é uma manifestação do Anjo Solar na madeira e nos óleos comburentes vegetais. Da presença ígnea e luminosa de Deus no fogo da madeira nascem vinte e quatro seres especiais que o Zoroastrianismo chama de Yazatas (também escrito Yazd). É dessa denominação que procede o nome yazidis.

No Zoroastrianismo, Ahura-Mazda rodeia-se de sete grandes Arcanjos chamados Amesha-Spentas. O primeiro dos Amesha-Spentas, Spenta Armaiti, é conhecido por nós, gnósticos, como Sophia Piedosa (Pistis Sophia). Ela é intimamente ligada ao reino terrestre e a duas partes do fogo luminoso sagrado de Ahura-Mazda: a parte que entrou no corpo luminoso do planeta e está presente também no corpo humano como calor vital; e a que entrou nos vegetais manifestando-se na madeira e nos combustíveis vegetais que produzem chamas luminosas. 

A parte do fogo luminoso de Ahura-Mazda que está presente na madeira e nos comburentes vegetais é governada pelo Arcanjo Spenta Ameretat (Imortalidade), o sétimo Arcanjo que sintetiza os seis outros.

De uma forma própria, o Yazidismo assimila o ensinamento dos Sete Amesha Spentas como os Sete Arcanjos que estavam na Terra, com Adam Kadmon, um deles chamado Melek Taus

Os gnósticos ocidentais entendem o nome Melek Taus da seguinte forma: Melek está ligado a Malarr (Anjo) e a Meler (Rei), o que dá origem ao divino nome cabalístico Adonay Meler (Senhor e Rei), cuja sonoridade governa a Décima Sephiráh chamada Reino (Malchut), palavra que no aramaico babilônico dos mandeanos soa Malkuth ou Malakuth; Taus refere-se à cruz. 

O título Taus demonstra que há uma camada de Cristianismo esotérico entre as estruturas doutrinais constituintes do Yazidismo, a qual se mescla profundamente com o Zoroastrianismo, em particular com o aspecto dessa antiga religião que afirma haver sobre a madeira uma parte do fogo luminoso de Ahura Mazda. Nesse contexto, a cruz de Jesus tendo ao alto a inscrição INRI lembra-nos dos alquimistas cristãos, que assim liam essa sentença: Ignis Natura Renovatur Integra, o Fogo que Renova Inteiramente a Natureza (figura 3). 

Figura 3: sobre a inscrição INRI (que nesta cruz aparece na língua romena, IHUH) os dois Anjos representam os Espíritos do Fogo de Deus. 

Em grego, a inscrição INRI é escrita da seguinte forma: Ἰησοῦς ὁ Ναζωραῖος ὁ Bασιλεὺς τῶν Ἰουδαίων, que transliterada seria Iesous ó Nazoraios ó Basileus Ton Iudaion. Observe o gnóstico ocidental que a palavra Ton-τῶν escreve-se com a letra tau-τ. Já em hebraico, essa inscrição é assim grafada: (ישוע הנצרת מלך היהודים, e sua transliteração é Yeshuáh há-Natsareth Melerr há-Irrudim. A palavra Melerr (rei) comporta sons estrangeiros, como Melek.

A figura da cruz, por conseguinte, agrupa ao seu redor um conjunto de muitos símbolos: a madeira; o verde; o fogo atiçado no alto da Cruz pelos Anjos do Fogo Renovador (INRI); o título Meller, que nomeia Jesus como Rei; a palavra grega ton- τῶν,  escrita com a letra tau-τ; a palavra yazd significando “Anjos que pastoreiam ovelhas na relva verde”; o Arcanjo Ameretat, regente da vida verdejante na Terra, em especial a dos pinheiros e a das palmeiras; e as Tradições Sagradas dos yazidis, que nos levam à Babilônia antiga do deus Tas Mikigal, regente da agricultura.

Desde a Antiguidade, os homens têm a noção de que o ar e a formação da umidade aérea condensada em diversos níveis (chuvas, lagos, rios) são fundamentais para a agricultura. Na Babilônia, Tas Mikigal estava relacionado com essas forças úmidas do ar, que nesse deus foram se adensando até ele receber asas. 

A umidade não é útil se ela se concentrar no alto e não descer para acalmar o calor da terra impulsionando assim o desenvolvimento dos brotos das plantas. Então, uma ave como o pavão, de hábitos terrestres, que não vive no ar das alturas, representa muito bem essa umidade concentrada perto do solo. 

A figura de Melek Taus precisa ser entendida segundo esse pensamento prático que caracterizou o conhecimento agrícola humano durante milênios e ainda está presente no entendimento empírico dos campesinos. Dessa forma, poderemos compreender a magnífica espiritualidade que nos pode transmitir o povo yazidi, uma riqueza que se concentra no culto ao Anjo Pavão (figura 4).

Figura 4: um livro de figuras sagradas dos yazidis traduzido para o inglês, com o subtítulo “The Cult Of The Peacock Angel” (o Culto ao Anjo Pavão).
MELEK TAUS: O ANJO PAVÃO

O século XX caracterizou-se por uma dualidade que representa, para o filósofo, o antropólogo e o gnóstico, um ponto crucial na compreensão da natureza do pensamento e da alma do ser humano. Essa dualidade é expressa pela inimizade entre religião e ciência. No século passado, o foco da ciência foi o desenvolvimento de tecnologia capaz de dar ao homem felicidade e bem-estar na matéria. A última e mais importante das contribuições foi a internet, que, a partir de 1995, desenvolveu-se a ponto de tornar-se acessível a toda a população mundial.

Mas na passagem do século XIX para o XX, grandes nomes – como a russa Madame Blavatsky, o dinamarquês Max Heindel, o alemão Rudolf Steiner, o suíço Carl Gustav Jung e o holandês Jan van Rijckenborgh – mesclaram-se a outros expoentes anteriores a eles, como os gênios da música Bach, Mozart, Beethoven, Wagner, o magnífico pensador e filósofo Jacob Boehme, e o escritor Goethe. Dessa mescla nasceu uma corrente de pensadores que foram os responsáveis por evitar que o século XX fosse um total mergulho no eixo da disputa entre ciência e religião. Isso permitiu que diversas manifestações do espírito humano formassem um espaço na mente da humanidade, abrindo a perspectiva do surgimento de uma nova consciência fraternal e pacificadora que pudesse curar as terríveis feridas das guerras travadas entre diversos povos, duas delas as mais cruéis, ocorridas em 1914/1918 e 1939/1945.   

O genial doutor Carl Gustav Jung deu a tônica ao poder idealístico do século XX ao dizer: “Conheça todas as teorias. Domine todas as técnicas. Mas ao tocar uma alma seja apenas outra alma humana”.

Essa candura e singeleza de olhar e tocar outras almas parece tomar o significado máximo quando se trata de repensar acerca do ódio e da terrível permissividade com que se opera um conflito armado, em especial quando ele toma proporções mundiais, como as Primeira e Segunda Guerras, a Primavera Árabe, a guerra na Síria, o drama da Ucrânia e as guerras contra o Iraque e o Afeganistão, dentre outras hostilidades que desde épocas medievais ocupam as páginas sangrentas da história.

O Oriente é a terra onde o sangue derramado, principalmente nos conflitos iraquiano, sírio e palestino, deixa um vapor lastimável em nossas memórias. Preocupa-nos de forma angustiante um dos desdobramentos da guerra na Síria e Iraque: o massacre dos cristãos e de nossos irmãos, os curdos yazidis

Os yazidis são originários da Mesopotâmia e estão sempre em fuga. Etnicamente são curdos, mas se distinguem por sua religião, que é monoteísta, pré-cristã e mesclada por elementos de várias tradições: a islâmica, a cristã e sobretudo a zoroastriana (culto majoritário na antiga Pérsia).  

Segundo a Religião Yazidi, Deus colocou a Terra sob a proteção de sete Divindades (Anjos). A principal, Melek Taus (o Anjo-Pavão), é também conhecida pelo nome de Shaytan, o mesmo que o Alcorão dá a Satanás. Isso leva muitos muçulmanos e cristãos, em particular os mais radicais, a verem os yazidis como “adoradores do diabo”. 

Agrava os desentendimentos com outras religiões o fato de os yazidis acreditarem na reencarnação e não seguirem nenhum livro sagrado de outras crenças, quer seja o Zend-Avesta persa, a Bíblia dos cristãos e judeus ou o Al Quran dos muçulmanos. Na Religião Yazidi, além dos elementos de antigas tradições do Oriente, causa grande choque em cristãos e muçulmanos o culto à figura do Anjo-Pavão, Melek Taus

O pavão tem um simbolismo sagrado nas religiões da Índia, terra que, sob diversos ângulos, para o cristão radical, é motivo de espanto e repúdio.

O deus hindu Krishna é representado nos Vedas Sagrados como um homem de pele azul que passeia por belos bosques com lagos, tocando flauta e em companhia de pavões (figura 5). 

Figura 5: Krishna nos bosques com pavões.

O pavão real é considerado uma criatura divina na mitologia da Índia, especialmente como veículo (vahana) de Kartikeya, filho de Shiva (figura 6). Shiva é o poderoso deus do tridente das águas e comandante-em-chefe dos exércitos de todos os deuses. Também se diz que, em certa ocasião, quando os deuses tomaram a forma de diferentes pássaros, Devraj Indra (o deus da chuva) escolheu a forma do mais refinado deles, o pavão real. Desde então, quando o Senhor Indra envia chuva à terra, todos os pavões reais dançam em expressão de júbilo, uma visão digna dos deuses, segundo as mentes religiosas hindus.

A relação entre Krishna e o pavão real é lendária. Nas representações desse deus, as plumas do pássaro sempre adornam seu toucado (mormukut), o símbolo da realeza segundo os hindus. Diz-se também que Krishna dançava como um pavão real para cortejar a esposa, Radha. Enquanto ele tocava sua melodia, os outros pavões bailavam em uníssono com as gopis (amigas que faziam companhia ao deus). Até hoje, os templos consagrados a Krishna exibem pavões reais nas entradas e locais de destaque.

Figura 6: Skanda. Um aspecto de Kartikeya, deus guerreiro filho do centelhar sêxtuplo do olho de Shiva. (Creditos Imagem: Metropolitan Museum of Art, New York
 

 

Figura 7: Krishna/Govinda, com o penacho de pavão realna cabeça e a ave aos pés.

A palavra hindu mormukut, dada ao penacho de pavão como símbolo de rei (melerr) dominando um reinado (Malkuth), e o simbolismo do pavão real ajudam-nos a compreender os yazidis, afastando-nos para longe do repúdio provocado por uma visão obtusa e de natureza religiosa muito preconceituosa.

A cabeça, no simbolismo hindu, é o órgão que possibilita ao homem governar as forças da criação, a mais importante delas a força do reino vegetal, a vida verde do Planeta.  Essa é a razão de, na figura 6, a cauda do pavão montado por Skanda confundir-se com o verde da vegetação. Nessa gravura concentra-se o simbolismo que pode ser aplicado ao Anjo Pavão, Melek Taus, daí por que nos dedicaremos a interpretar seus elementos figurativos.   

A palavra skanda, no Budismo, indica os agregados psíquicos que formam o ego, contra o qual lutamos, por ser ele o campo onde se concentram as imperfeições e demônios mentais que perturbam o progresso de nossas qualidades espirituais.

Kartikeya é nascido das águas do Ganges e de seis centelhas do olhar de Shiva. Ele tem seu equivalente nos Seis Amesha Spentas (do Zoroastrismo), em particular, em Ameretat e Armaiti, os quais representam o equilíbrio entre o calor e a umidade, de onde nasce a vegetação e a imortalidade dos homens. 

O desequilíbrio entre o úmido e o quente gera uma alma-sangue cujo ego se entrega ao demonismo representado pelas imperfeições, pelos vícios e pela ignorância, daí porque Skanda-Kartikeya tem seis armas de guerra: o disco (chacra), que representa a luta da Verdade contra a ignorância; o cetro, significando a luta do governo puro e justo contra as forças furiosas do caos; a lança, que fere o fígado, indicando o alcance do poder transformador que atinge as imperfeições que habitam o sangue; o dardo, simbolizando o alcance das virtudes, ou seja, o campo de abrangência das profundas transformações mentais e espirituais de um ser; a espada, que corta na carne as paixões e a sensualidade desenfreada; e o ato de montar o pavão, isto é, a vitória sobre os aspectos negativos do ego.

Melek Taus, muitas vezes identificado como Miguel e sua luta contra o dragão do mal, deve ser entendido não como Satã, mas como o poder divino que dentro de nós luta contra o que somos na realidade: seres egoístas verdadeiramente satânicos. Isso o Yazidismo quis indicar buscando, nas profundezas da ancestralidade mental humana, as antigas tradições hindus e zoroastrianas. Contudo há outro aspecto a ser enfatizado – que tem uma complexa relação alquímica com o equilíbrio entre o quente seco e o frio úmido do solo e do ar – do qual a Escola Jessênio retira grandes ensinamentos ecológicos e fitomédicos que formulam no espírito do aluno as aspirações mais nobres e importantes a respeito da vida verdejante da Terra.

                    Figura 8: o Anjo Pavão e a vida verdejante do Planeta.
Figura 9: a árvore, a vegetação, o sátiro e o santo com as Sagradas Escrituras. 
OS SIGNIFICADOS DA CAUDA DE PAVÃO PARA A ALQUIMIA E A GNOSIS JESSÊNIA

O Jessenismo, no Oriente e no Ocidente, assimilou o saber gnóstico do Yazidismo segundo uma ótica fraternal e positiva, que significa a utilização de seus elementos doutrinários no aprofundamento naquilo que denominamos Fitoastrosofoterapia, um conhecimento que abrange desde a brilhante descoberta de Carl Gustav Jung acerca da mente humana em seus aspectos psicológicos até o espírito ecológico e alquímico que permite observar a camada vegetal da Terra com uma profundidade inédita no Ocidente. 

O mundo vegetal, o mineral e o aquoso são vistos pelo Jessenismo como elementos fundamentais da vida no Planeta, por isso devem ser compreendidos de modo especial.

Como o Jessenismo é de natureza gnóstica, sua doutrina cristã dualista convida o homem para uma releitura inédita do primeiro livro da Bíblia, Gênesis, onde a Queda é entendida, conforme descrita no capítulo 2, como um lamentável acidente em que o Homem se separou de Deus e mergulhou na matéria, em um oceano de venenos espirituais e mentais.

Na queda, o Homem Original, cuja expressão só pode se dar de modo completo como uma Alma divina, ficou confinado a um corpo que, no aspecto espiritual, permite-lhe dinamizar apenas toxinas, e por meio delas ele gera as mais variadas cores emocionais imperfeitas e viciosas. 

A Alma divina, com o acidente da queda, abandonou seu espaço de manifestação no Homem. No lugar dela surgiu a alma-sangue, uma alma de conflitos que colore a aura humana (o campo de irradiação luminosa ao redor do corpo físico) com as cores tóxicas do ódio, do amor passional, do medo, da descrença, da crença tola, da esperança ingênua e pouco inteligente e com a tonalidade da ignorância e da animosidade. 

Os povos antigos acreditavam que o pavão podia alimentar-se de qualquer vegetal ou alimento venenoso. A ave transformava as substâncias venenosas nas cores deslumbrantes de sua cauda. Essa é a razão de a Alquimia representar a transmutação dos metais com a cauda do pavão.

Jesus, ao receber na cruz um copo com hissopo (vegetal amargo) e vinagre, que representam as toxinas e venenos da matéria, assume uma figuração simbólica semelhante à do pavão.

Os primeiros cristãos, em diversas situações, retratavam o cálice da Santa Eucaristia sendo sorvido por um pavão, demonstrando a primavera florida, o verde em broto, a vida verdejando e a imortalidade permeando toda existência inspirada nos Evangelhos de Jesus crucificado.

Alguns sufis ensinam que o Homem Primordial viu o seu rosto e a luz que o rodeava como uma poderosa aura luminosa repleta de figuras como as da cauda do pavão, razão de eles utilizarem o simbolismo dessa ave para indicar o homem que retira os véus de imperfeições existentes no sangue, as quais o impedem de ver Deus como Realidade.

Os "olhos" na cauda do pavão abrem um leque de interpretações e significados. Ainda segundo o Sufismo, eles indicam as virtudes espirituais irradiadas pelo olho do coração. Já a Teosofia considera o pavão como um “emblema da inteligência de cem olhos e da iniciação”; “é a ave da sabedoria e do conhecimento oculto", diz o Glossário de Helena Blavatsky. 

O "olho" da pena do pavão também é associado à glândula pineal, fazendo dela (a pena) um símbolo sagrado. Ainda hoje essas penas são usadas como talismãs e proteção contra maus espíritos em muitas culturas, pois representam a presença de seres celestiais puros que auxiliam as mãos abençoadoras de Deus.

O Mebaker Jodachay Bilbakh, o Mestre espiritual da Escola de Mistérios Jessênia, hoje fugitivo pelos desertos do Oriente (como quase todos os gnósticos da Terra do Sol Nascente), quando esteve no Brasil, de 1980 a 1984, comentou com seus discípulos: “o pavão tem um porte majestoso especial. Entre as espécies de aves, é a que me causa particular admiração; seu canto parece um clamor muito tocante, como o da Alma divina em busca do antigo estado de glória. Os antigos viam nele, no seu canto, o clamor da Sabedoria e a sublime transcendência do Espírito. Sempre admirei essa ave e vejo nela um todo harmônico que expressa a natureza em seu máximo esforço por dar ao homem estrangeiro sobre a Terra e errante no reino da matéria algum alento e lembrança das suas origens divinas”.

 Em outra oportunidade, a respeito do simbolismo da cauda do pavão, disse o Mebaker: “alguns cristãos do Cristianismo do princípio acreditavam que os Anjos nasceram da cauda de um pavão que Deus trouxe para o Paraíso com a finalidade de deixar esse lugar em eterna atmosfera típica da primavera. Os Anjos teriam nascido da cauda do pavão como prova de que no Éden as delícias divinas e espirituais foram semeadas por meio dos Mistérios Divinos e que estes desenvolviam as forças da grande Sabedoria de Deus”.

O pavão, como elemento paradisíaco angélico que exercia a agricultura sagrada do Éden, seguiu o homem quando ele foi expulso desse lugar santo. A ave canta as melodias das sublimes Verdades que constituem uma manifestação dos Mistérios de Deus fora da região selada do Jardim Edênico. Essa melodia angélica cósmica faz o homem lembrar de sua origem celestial e sentir grande anelo por retornar à sua Pátria Original.

Em razão desses Mistérios, o Jessenismo Ocidental construiu toda uma sabedoria esotérica que recebe o nome de Astrosofia, de Angelosofia e Fitoastrosofoterapia. Essa sabedoria edificou-se a partir do conhecimento do Mebaker Jodachay Bilbakh, que esteve com os mandeanos entre 1976 e 1978 e com eles aprendeu a especial Astrologia sabiana (dos sabeus, o povo pré-islâmico e gnóstico da Arábia Saudita), que leva em conta o momento da criação do Sol na quarta-feira (Genesis 1, versos 14 a 19). 

A astrologia sabiana-mandeana não tem o escopo da astrologia comum porque não se dedica a estudar posições dos astros e interpretações dos destinos humanos; longe desse propósito, ela visa estabelecer as condições em que os rituais sacerdotais das Comunidades Gnósticas deverão ocorrer. Nesse sentido, a Astrologia sabiana assemelha-se à essênia, que tinha um calendário solar de 364 dias, também estabelecido sob a perspectiva de que o Sol foi criado por Deus numa quarta-feira. Tal entendimento levou os yazidis a considerarem a quarta-feira um dia especial da semana, semelhante ao domingo para os cristãos, ao sábado para os judeus e à sexta-feira para os muçulmanos.

Os yazidis, hoje em evidência na mídia em razão das perseguições que vêm sofrendo, habitam as montanhas do norte do Iraque, enquanto os mandeanos-sabianos habitam o sul. Ambos são povos gnósticos do Oriente, de índole pacífica e de natureza muito diferente da que caracteriza os povos árabes, particularmente os árabes muçulmanos. Os sábios yazidis ocupam-se em praticar seus conhecimentos secretos, como a fitomedicina astrológica, segundo a qual os astros são considerados forças curativas manifestadas nos vegetais como forças da Imortalidade (Spenta Ameretat). 

Os jessênios do Oriente e do Ocidente também detêm esse conhecimento secreto dos sábios mandeus, sabeus e yazidis. Na Comunidade Jessênia do Ocidente, essa ciência dá origem a um conjunto de orientações acerca de cuidados especiais para com o meio ambiente e de como lidar com vegetais que têm estrutura química terapêutica ou propriedades chamadas ocultas. Essa atividade é realizada na estrita obediência às leis do país e sob a supervisão de médicos, farmacêuticos, botânicos e biólogos. 

Esses vegetais especiais, segundo o Jessenismo, representam as operações angélicas que influenciam o processo mental e espiritual da humanidade. É o caso, por exemplo, da raríssima planta amazônica chamada palmae jessenia, cujo nome científico coincide com o da Comunidade Jessênia. Segundo a fé gnóstica jessênia, as palmeiras têm uma força oculta: elas concentram as operações do Anjo Filakiel, também conhecido como Haniel, o mesmo que no Zoroastrianismo é chamado de Spenta Ameretat (figura 2). 

A Escola de Mistérios Jessênia, para particularizar seu conhecimento secreto acerca da vida alquímica das plantas, diferenciando-o do saber fitoterápico comum, denomina-o Astrosofia Fitomédica ou Fitoastrosofoterapia

Figura 10: Fitoastrosophia Jessênia, a ciência gnóstica que trabalha com as interações cósmica do Céu divino e suas radiações curativas, que chegam ao vergel do Planeta e revelam ao Mestre gnóstico seu reflexo curativo.

Essa ciência é desenvolvida em uma região do cerrado de Minas Gerais, pelos orientadores da Comunidade Jessênia no Brasil. Nesse local são desenvolvidas experiências e técnicas de exploração do solo de forma biosustentável. Também trabalhamos em projetos de recuperação do Cerrado, que abrangem o cuidado com as águas e matas ciliares, o plantio de espécies vegetais terapêuticas e cultivo de mel segundo a sabedoria esotérica que chamamos de Fitoastrosofoterapia. O conteúdo dessa ciência iniciática é retirado do livro De Signatura Rerum, de Jacob Boehme, da Astrosofia Rosacruz e da herança de nossos contatos com os mandeanos, sabeus, yazidis e outros sábios que vivem em caravanas nômades nos desertos orientais. 

Figura 11: outro símbolo do Grau Fitoastroterapeuta, o discípulo que integrou a sua mão, em especial o dedo anelar aos éteres de sacrifício de Jesus Sofredor.
Figura 12: desenho do livro Teletes (século XVI), onde o astrólogo Ticho Brahe fala da interação entre astros, anjos e o reino vegetal.

Na prática de nossos conhecimentos fitoastroterapêuticos, voltamo-nos principalmente para o trio água-seiva-sangue, por entendermos a figura de Kartikeya de uma forma mais esotérica que os hindus. Sabemos que o “deus-pavão” nascido das águas do Ganges guarda em seu simbolismo os primeiros esforços dos Anjos de Deus que trabalharam as águas do planeta, a seiva, o óleo e a clorofila dos vegetais, bem como o sangue dos animais e seres humanos. 

Os Anjos lutaram contra as trevas naturais da matéria em cada uma dessas substâncias e em seu núcleo atômico abriram passagens alquímicas quem dão às almas e centelhas-vidas a possibilidade de dignificarem-se na Bondade Suprema, a qual é o alicerce do relacionamento entre os Seres Imortais no seio da Eternidade. Esses segredos iniciáticos da Fitoastroterapia poderão ser praticados pelo aluno jessênio que, honrando sua hereditariedade espiritual caracterizada pelo Yazidismo, pelo Mandeanismo, pelo Essenismo e pelo Cristianismo, alcançou o Grau 20º, o do Alquimista Fitoastroterapeuta.

Figura 13: Jardim de Luz, Gan-Or, em hebraico. Um espaço destinado ao cultivo de plantas medicinais. 

Segundo o ensinamento esotérico da Alquimia, o trabalho mais nobre e profundo do alquimista se encontra no interior do seu próprio ser, na chama-alma de vida imortal do seu coração. Esse trabalho deve ser repetido também no interior da Terra, de modo que devemos “visitar o interior da Terra e encontrar ali a pedra oculta”, sentença que em latim se escreve: Visita Interiora Terrae Rectificando, Invenies Occultumm Lapidem (VITRIOL).

Figura 14: o Vitriol. Saturno, Júpiter, Marte e Vênus juntam-se astrosoficamente para formar com o planeta Terra (seus oceanos, solo e nuvens) o equilíbrio entre umidade, secura e calor, sem o que a alma-centelha cardíaca não pode se manifestar.

A planta que exerce a função “vitriólica saturnal” é chamada canela-de-macaco, que é cultivada nos espaços fitoastroterapêuticos da Comunidade Jessênia. Por meio desse belo vegetal medicinal, é possível aferir a umidade dispersa no ar e observar seu encontro com o calor e a secura do solo. Os tons rubros da canela- de-macaco mostram que a terra assimilou a friagem úmida e que as forças curativas ali se encontram em atividade. Todas essas operações alquímicas só o alquimista iniciado sabe ler e colocar em dinamismo em sua oficina fitoastroterapêutica.

Figura 15: canela de macaco, um vegetal aferidor da alquimia curativa.
Figura 16: o Éden vitriólico segundo a Gnosis Jessênia.

A respeito da função vitriólica saturnal, lê-se no livro De Signatura Rerum, de Jacob Boehme: “Assim, quando o mercúrio é pronunciado no enxofre de Saturno, abandona a sua propriedade em Vênus, então o Verbo Fiat o transmuta segundo o anelo por liberdade. O cadáver se levanta com um corpo novo revestido por uma formosa cor branca, cor que não se pode reconhecer bem, pois se encontra velada; a matéria tarda muito tempo em resolver-se, e quando volta a ser desejosa, se ergue nela o Sol, segundo o Verbo Fiat, no centro de Saturno, com Júpiter, Vênus e as sete formas; é uma criação nova, solar, branca e vermelha, majestosa, luminosa e ígnea” (capítulo IX, item 23).

Essa linguagem, altamente simbólica, angelosófica e astrosófica, não será de todo aqui decifrada, mas teremos de elucidá-la em parte a fim de o leitor compreender por que certos procedimentos de Fitoastroterapia são adotados de acordo com a floração vermelha da cana-de-macaco.

No Cerrado, em especial na região central do estado de Minas Gerais, que compreende a Serra do Cipó, e no semiárido, ocorre uma manifestação da “cólera furiosa entre umidade, calor e secura”. As pedras, o cascalho, o solo ardente, que são, no sentido fitoastrosófico, “filhos de Saturno” (filhos da secura), encontram-se com Vênus noturna (a umidade de que se fala, dispersa no ar). Se essa Vênus desce e habita a terra umedecida, serenada, e nessa terra existe o trabalho de um homem de sangue salnítrico, ou seja, visitado pelo Espírito da Verdade, os pés descalços e suados desse homem especial ali deixam marcas, e por meio desse suor sanguíneo é transmitido à terra o seu esforço espiritual. Então, nesse ambiente manifesta-se a força que gera as tinturas branca e vermelha bem como o agente verdejante terapêutico. A observação da flor rubra da planta canela-de-macaco é uma das formas com que o alquimista afere a tintura vermelha e os agentes terapêuticos em dinamização.

Explicar o que chamamos de Espírito da Verdade não é tarefa fácil, pois qualquer definição diminuiria muito os significados do que ele é. Mas podemos dizer que o Espírito da Verdade é um elemento sutil que aparece quando os Anjos se fazem presentes em algum lugar para ali produzir a cauda do pavão, ou seja, substituir o mortal pelo imortal por meio de operações alquímicas na umidade.

As atividades que denominamos “batismos alquímicos da terra” constituem-se de operações alquímicas na umidade, que na aparência apresentam-se como um extremado cuidado de observação das plantas, principalmente a cana-de-macaco, a fim de efetuar a rega, organizar as pedras no solo e umedecer suas camadas mais profundas, acrescentando os elementos minerais necessários. 

Horário noturno e datas astrosóficas específicas para as atividades umedecedoras transformam esses “batismos” em operações alquímicas, e a presença ainda que sutil das cores branca e vermelha nas plantas indica o alto acerto de nossas operações bem como a aprovação ou reprovação das mãos angélicas.

A presença, nos locais jessênios destinados à Fitoastrosofoteraia, de um suor impregnado de estanho, de um sangue amargoso e impuro, no qual não há o Espírito da Verdade, afeta todo esse delicado lugar, indicando tratar-se de alguém indigno da parceria com as mãos angélicas. Portanto, uma acuidade e intuição muito elevadas devem qualificar o alquimista agricultor de um jardim dessa espécie, pois ele aferirá o meio correto para que tudo verdeje, brilhe e frutifique. 

Os yazidis, os mandeanos, os essênios, os sábios dos desertos do Oriente, os rosacruzes (como Jacob Boehme), os cátaros e outros grandes gnósticos ofereceram à humanidade as mais sublimes e secretas orientações, extraídas de seu Espírito da Verdade. As ações resultantes dessas instruções transformam o solo, a água, a vida mineral, vegetal, animal e humana em vidas verdejantes, abençoadas pelos Anjos do Paraíso, Anjos-Pavões que operam como tintureiros edênicos.  Os agricultores que se alistam para o trabalho nessa santa agricultura alquímica são transformados em agentes sacerdotais sagrados. Como homens melhorados pela Sabedoria Suprema, eles podem resgatar nosso planeta da lamentável ruína geológica, atmosférica e climática em que se encontra.

Considerando todo o conjunto dessas sublimes orientações do Espírito da Verdade, o Jessenismo não se define como inteiramente yazidi, essênio, mandeano, sabeu, cátaro ou rosacruz. Como todo Gnosticismo, ele nasceu da livre e misteriosa incursão da mão angélica da Sabedoria de Deus, acima da Lua, corpo astrológico que formata os destinos humanos. Então, o que caracteriza o Jessenismo, em primeiro lugar, é a liberdade para humildemente tudo submeter à ação do Espírito da Verdade; depois, ele se sujeita ao amor fraternal, que anela por verificar e constatar em outras religiões gnósticas a mesma ação da Verdade, em níveis diferentes. Por isso, lamentamos que as religiões radicais acusem os yazidis de satanistas, adoradores de Shaytan. Entendemos que esse povo deve ser ouvido com atenção, boa vontade e defendido, com lucidez, de acusações tão sórdidas, insensatas, desprovidas de conhecimento. 

A seguir, verificaremos por que alguns se posicionam dessa forma preconceituosa e cruel, manifestando-se nos diversos meios de comunicação e em diversas línguas. Tais pessoas, dotadas de pretenciosa “sabedoria”, julgam-se autorizadas a acusar os yazidis de praticantes de “luciferianismo”.

O MEBAKER JODACHAY BILBAKH, O SEU ENCONTRO COM O ROSACRUZ L.C.N E O COM OS YAZIDIS ARMÊNIOS

O Oriente, com seus desertos, é uma terra extraordinária onde muitos “encontros com homens notáveis” podem acontecer, mas a beleza imensurável desses encontros sempre nos foge à compreensão em virtude de sua elevada envergadura espiritual.

O Mebaker Jodachay Bilbakh, líder espiritual máximo da Escola de Mistérios Jessênia, teve muitos encontros notáveis. Aqui, investigaremos dois deles: com os yazidis armênios; e com o rosacruz L.C.N, um judeu cristão gnóstico que tinha uma profunda admiração por Jacob Boehme. 

 Há que se dizer que o homem esotérico ocidental não é preparado espiritual e emocionalmente para compreender o homem esotérico oriental, e quando as oportunidades conspiram para que encontros entre esses dois tipos humanos tão diferentes aconteçam, os relatos deixam traços claros a respeito da natureza dessa incompreensão. 

Gurdjieff, que foi tema do filme Encontro com Homens Notáveis, demonstra claramente com a sua própria história a dificuldade do ocidental em encontrar e entender os sábios do Oriente. 

Os que conhecem um pouco da história da Comunidade Jessênia no Oriente sabem que nossa Escola surgiu a partir de 1950, com um grupo de alunos cabalistas do mestre Yalladhay. Em 1970, esse grupo recebeu uma figura de notável caráter espiritual, o senhor Jodachay Bilbakh, mais tarde identificado em sua guilgul (roda de reencarnações) como uma velha alma peregrina, que viveu entre o Oriente e a Europa. Neste continente, participou, de perto, do nascimento da Cabaláh em Girona e Provença, e da Gnosis no sul da França.

A alma-centelha do Mebaker Jodachay carrega consigo fortes pré-memórias microcósmicas relacionadas ao Oriente, ao sul da França e à Península Ibérica. Essas marcas em sua lípika deram uma conotação muito bela a seu ingresso no grupo do Mebaker Yalladhay e o tornou muito influente, pois o grupo possuía uma qualidade de alma muito geminada ao passado do relacionamento Oriente e Ocidente. Preponderava no grupo, então, uma peculiar agenda associada aos milenares encontros notáveis ocorridos entre as duas partes do mundo. 

Entre 1970 e 1979 o grupo jessênio oriental, seguindo essa agenda espiritual muito sutil, encontrou os mandeanos e o rosacruz L.C.N. Também localizou na América do Sul o filho e neto de portugueses, Eduardo de Araújo (Ibny Joshai), o qual também possuía registros de anamnese (pré-memória microcósmica) muito semelhantes ao do grupo.

 Estabelecendo um paralelo entre o filme de Gurdjieff e o Mebaker Jodachay, verifica-se que o encontro mais notável do Mebaker com o Ocidente deu-se na figura de L.C.N, cujo perfil era cátaro, bogomilo e rosacruz. Assim, o fruto desse encontro foi a entrega (seguindo um rito mágico muito rico), feita por L.C.N ao grupo oriental, das obras de Jacob Boehme traduzidas para o idioma hebraico.                           

Jacob Boehme, um grande cristão visionário do século XVII, de alma profundamente germânica, escreveu o livro Aurora, onde ele revela de modo incomparavelmente inédito e belo, a natureza angélica que participou do ato da criação deste Planeta e do Éden.

Ao investigar com seu poder visionário a onda angélica que laborou, ao lado de Deus, na formação geológica da Terra, Boehme destaca, com uma noção fortemente cristã dualista, as diferenças entre Lúcifer, o anjo decaído, Mikael e Jesus. Essa percepção de Boehme contrasta com a doutrina yazidi acerca da natureza angélica dos auxiliares de Deus em seu ato criador. Aqui apresentaremos uma ampla e séria abordagem de como funciona na mente do Mebaker esse contraste doutrinal e de que forma ele assimila o rico conteúdo dos seus encontros notáveis. 

A Eubiose fala de um Buda-Síntese, que se manifestaria em Aquário a partir de 2005. Já a Fraternidade Rosacruz, ramo rosacruciano sob a maestria de Max Heindel, descreve o personagem C.R.C (Cristão Rosa+Cruz) como a síntese de sete manifestações das cinco grandes correntes de tradições da Sabedoria Antiga. 

Recuando no tempo, encontraremos, entre 216 e 277 d. C., o personagem Manes, ou Mani, o persa cuja missão profética foi sintetizar, numa final e muito bem perfilada Religião Universal, os antigos ensinamentos de todos os profetas que o antecederam.

Cátaros e bogomilos são os filhos maniqueus que representam o gigantesco esforço de Mani. Ambos faziam uma distinção (muito próxima da que fazia Jacob Boehme) entre Lúcifer e Mikael, e Lúcifer e Jesus.

Para os jessênios do Oriente e do Ocidente, o Buda-Síntese de Aquário é o próprio Mani renascido numa forma de Neocatarismo e Neorosacrucianismo dualistas gnósticos. Esse Rosacrucianismo é inspirado totalmente no encontro do Mebaker Jodachay Bilbakh com o Irmão L.C.N. Outro encontro semelhante deu-se nos anos 1980 a 1984, entre Jodachay Bilbakh e Ibny Joshai, e desdobrou-se em outro: o de Ibny Joshai e Bath Yonáh com Ibny Zináh, de 2001 a 2009.

O Maniqueísmo e o Zoroastrianismo, duas magníficas correntes persas de conhecimento esotérico, que também são encontradas nas camadas doutrinais do Yazidismo, estão claramente presentes no projeto do Buda-Síntese de Aquário, do qual nascerá um forte Neocatarismo e Neorosacrucianismo. Por essa razão é importante olhar com vistas mais cuidadosas o conjunto de situações que representa o encontro de Jodachay Bilbakh com os yazidis.

Em 2009, quando o Mebaker viu algumas crianças yazidis, na Armênia, ele pesquisava as estelas de pedra chamadas khachkares. Chamou-lhe a atenção uma khachkar em especial (figura 17), pois remetia sua pré-memória microcósmica a um passado gnóstico maniqueu muito vivo em sua lembrança. 

Figura 17: a cruz-espada, a águia com asas em espirais e a esfera planetária dividida em quatro braços.

O encontro com as crianças yazidis tocou profundamente o Mebaker Jodachay, que indagava acerca do estado taciturno dos pequenos. Em suas conversas com esse povo, ele lhes falou acerca de sua guilgul (roda de encarnações) e apontou-lhes o tempo em que viveu entre os cátaros do sul da França e, recuando mais ainda, entre grupos maniqueus do século III e VIII d. C., quando assimilara a corrente de Gnosis que verteu para a Religião Yazidi. 

O Mebaker preocupava-se com o fato de os yazidis serem odiados por muçulmanos sunitas e cristãos ortodoxos, em função da ignorância acerca de sua Cosmogonia, segundo a qual Satã (representado pela asa negra de Melek Taus, o Anjo Pavão) é um Anjo híbrido, conceituação esta que difere dos ensinamentos de Jacob Boehme, bogomilos e cátaros. 

Ensina o Yazidismo que, no processo da Criação, o lado da asa negra de Melek Taus (Satã) fora castigado com a tarefa de encher sete jarros de água durante sete mil anos, até apagar o fogo do inferno. Podemos entender essa tarefa de encher os 7 jarros de água como o trabalho dos pastores das Igrejas Gnósticas de levar as ovelhas até o Jordão Batismal, até os Mistérios Gnósticos Libertadores.

Em função dessa característica da doutrina yazidi, um satanista do século XX, Aleister Crowley, arvorou-se no direito de apresentar-se como encarnação de um “sacerdote yazidi”. Tal disparate deixou esses pobres homens dos desertos do Oriente em situação ainda mais confusa e comprometida.

Um homem do naipe do Mebaker Jodachay Bilbakh precisa cuidar de modo muito especial e zeloso dos seus encontros, pois eles disparam em seu microcosmos poderosas forças, próprias do seu trabalho de Arquipontífice.

O Arquipontífice é um homem com uma lípika especialmente rica, onde doze pontos maiores e trinta e seis menores operam uma lei matemática oculta que pode ser expressa pela operação Matetekous 6 x 12 = 72. O número 72 indica os setenta e dois nomes angélicos da Sephiráh cabalística Hessedh (Misericórdia).

Na linhagem cabalística essênia do Mebaker, há a instrução de que, no início da Criação, Mikael e Gabriel cavaram, na pré-esfera terrestre (ou seja, antes de existir a esfera física da Terra), canais para que a água fluísse em quatro direções. Esses Anjos voavam com o Espírito de Deus sobre a face das águas, de modo que eles eram “pássaros sagrados” formando, nessa pré-esfera, uma cruz com quatro canais de condução hídrica. Iniciou-se assim a criação (a partir da asa branca de Gabriel) de sete Céus, sete Terras, o Sol e a Lua, sendo que os dois últimos astros tinham a finalidade de misturar muitas propriedades na imensidão dessas águas (ver figura 14, o Vitriol).

Esse conhecimento acerca da Criação consta também na doutrina yazidi. Portanto, Jessenismo e Yazidismo tocam as camadas das antigas tradições esotéricas da Sabedoria Universal.

Como na lípika do Mebaker há especiais propriedades arquipontifícias, ele desejou um encontro mágico, profundo, com o povo yazidi para reacender a cadeia de correntes gnósticas caracterizadoras do seu arquipontificado. 

A corrente gnóstica jessênia difere da yazidi no ponto cosmológico. Mas testemunhamos veementemente contra a acusação de que nossos irmãos do Oriente sejam satanistas e luciferianos.

A doutrina yazidi confessa o bem, aprofunda a ciência esotérica da Angelosofia e da Astrosofia e professa um dualismo que do moderado oscila para um monismo de contornos próximos ao Rosacrucianismo de Max Heindel. As razões que nos convencem a considerar a Gnosis Yazidi de teor dualista, ainda que tênue, são: a prática do batismo; o vegetarianismo (interrompido apenas por uma cerimônia mitraica de sacrifício de um boi em certa data festiva e ritualística); a ideia de Apocatástase, eco doutrinário do patriarca cristão Orígenes (185-253 d. C.), para quem, no final dos tempos, haverá uma restauração de todas as coisas, inclusive de Satã.

Para entender o simbolismo caracterizador do Yazidismo, auxilia-nos estudarmos o símbolo do galo e do pavão, que são associados ao amanhecer, ao sol, às cores da luz.  Entretanto, nos Evangelhos, o galo aparece representando a traição de Pedro quando Jesus vai para a Cruz, o que é um reflexo da doutrina acerca da traição primordial, cometida por Satã, ao Plano Criacional de Deus. A partir do século IX, a figura do galo passou a constar no campanário das igrejas cristãs; no século XII, aparece no teto das casas europeias e, em determinados locais, esculpido no metal para indicar, de acordo com a direção do vento, as quatro direções da Terra: norte, sul, leste e oeste.

O galo também é o símbolo pagão do deus Mercúrio/Hermes. Na África, ele surgiu como representação da bela ação de Deus criando todas as coisas aos pares, em casais. Na linguagem de Mistérios da Gnosis Valentiniana, de origem egípcia, esses pares são chamados sizígias, que é a forma como Deus organizou o mundo angélico.

Apesar de o simbolismo do galo ter conotação pagã, e de nos Evangelhos apontar para a traição de Pedro, que é um eco da traição de Satã[1], ninguém acusa a igreja de satanismo e de paganismo por ornar os campanários de seus templos com a figura dessa ave.

Nenhum simbolismo gnóstico, esotérico, do Yazidismo tem conotação satanista, como a evocada pelo ocultista Aleister Crowley, por alguns grupos de rock ou por seitas satanistas do Ocidente. Isso fica patente observando-se a bandeira dos yazidis, que é de uma suavidade e estética de cores que salta do singelo ao admirável (figura 18).

[1] Lembremos aqui as palavras de Jesus dirigidas a Pedro quando este tenta convencê-lo de fugir da Cruz: o Nazareno lhe diz: “vade retro Satanás” (Marcos 8: 33).

Figura 18: a bandeira yazidi evoca o Sol e seus ardentes raios “brasis”.

Comparemo-la com a bandeira brasileira.

Bandeira do Brasil: história, significado das estrelas e cores
Figura 19: a bandeira do Brasil, a sua cor solar e a sua beleza verdejante.
Figura 20: o simbolismo yazidi composto pelas figuras do pilar, do galo-pavão, do sol e do arco-íris. Observar as cinco esferas abaixo do pavão indicando os Cinco Mistérios.

Na Gnosis Jessênia, a cor verde tem um significado que ultrapassa a inteligência comum do homem, pois vai além de representar as florestas, os rios e o delicado equilíbrio desses biomas. Ela designa a rica alquimia ligada ao 20º Grau da Iniciação Jessênia, o do Fitomédico Alquimista, o Fitoastroterapeuta.

O Irmão L.C.N, em todo o período de convivência com os jessênios orientais (ele conheceu o Mebaker em 1978 e faleceu em 1981), nunca estranhou a forte influência que os mandeanos do sul do Iraque deixaram no Jessenismo, mesmo sendo ele um judeu, cabalista e rosacruz.

 Consideramos de grande importância o fato de L.C.N, um seguidor convicto de Jacob Boehme, aceitar a Gnosis Mandeana, já que Boehme apresenta em suas obras uma enfática ideia acerca do paganismo. A esse respeito, o sapateiro de Gorlitz[1] margeia as fronteiras entre o seu belo esoterismo e a sua educação cristã protestante luterana.

Como rosacruz áureo, o Irmão L.C.N era contra a prática da Astrologia, mas em suas aulas acerca do livro Aurora Nascente, os desenhos eram um misto de suas observações acerca das curvas e trajetórias dos planetas, da conexão profunda entre suas órbitas e da dança circular e sigmoide dos Serafins santíssimos, os quais eram apontados por esse grande mestre como maestros do coro de Anjos de cujas asas surgem as músicas das esferas.

[1] Jacob Boehme era alemão da cidade de Gorlitz.

Figura 21: capa do livro Aurora Nascente de Jacob Boehme.
Figura 22: desenho jessênio que propõe explicar o ensino de Jacob Boehme exposto no livro Aurora Nascente.
Figura 23: esboço de um desenho denominado Música Sanguínea Seráfica, que faz parte das orientações internas jessênias para o estudo da Mantrosofia. Utilizamos a figura para ilustrar os ensinos de Jacob Boehme.
Figura 24: uma mandala yazidi indicando os giros e as danças dos Serafins nos céus. A música desses seres santíssimos, cuidadosamente preparada pelos ritos gnósticos, faz girar a rosa cardíaca transformando-a em roda musical seráfica.
JESSENISMO E YAZIDISMO: SEMELHANÇAS, DIFERENÇAS E COMPLEMENTAÇÕES

O Mebaker Jodachay Bilbakh tem uma frase que é muito significativa para nortear o espírito filosófico e religioso do Jessenismo. Ele diz que “a religião deveria se preocupar unicamente com o Bem e com a Bondade porque não há outro nome para a Verdade senão Bondade Absoluta”.

Se as religiões agissem conforme o conteúdo dessa frase, o mundo estaria, neste início de terceiro milênio, sob um poderoso influxo de transformações sociais, antropológicas, psicológicas e espirituais, e a humanidade poderia, então, demonstrar, de forma clara, o idealismo que a Era de Aquário propõe a ser colocado em relevo.

Porém, o que se verifica no Oriente, lugar do sol dourado e das forças que verdejam a vida, é uma terra estraçalhada pelas guerras. Assim, seu ouro espiritual, antes puro e brilhante, é tingido com o sangue escurecido pela dor das atrocidades cometidas em nome de um suposto deus, ignorando-se que o Deus verdadeiro, quer seja denominado Jehováh, Alláh ou Verbo Divino, certamente falou de modo semelhante e bondoso a judeus, árabes, muçulmanos, yazidis, mandeus, zoroastrianos, xiitas, palestinos, cristãos. 

Como cristãos, assistimos atônitos às cenas veiculadas pela mídia, que mostram as atrocidades das guerras da Síria e do Iraque. Nesse cenário trágico não se distingue cristãos, muçulmanos, alauitas, sunitas, xiitas, judeus ou palestinos, são apenas carnes rasgadas por conflitos intermináveis. 

Por que se encontra em estado tão miserável o povo da Bíblia e os que de algum modo foram guiados por profetas de espírito livre, que buscaram a sua religião na história de Adão, de Jesus, de Maomé, de Zoroastro ou de Mani? A resposta do Jessenismo para essa dolorosa questão é que, na queda, os homens perderam algo de precioso que os ligava de modo dinâmico e inevitável à Bondade de Deus, que é a Verdade sob um ângulo de respeito às semelhanças e diferenças. Essa Bondade sabiamente opera com as elevadas virtudes de cada povo, observando suas diferenças para apresentar a ele a Realidade-Deus manifestada como puro Amor sagrado. No extremo oposto, estão os que negam essa Bondade e, de forma violenta, lançam mão de argumentações filosóficas rebuscadas ou infectadas de fanatismo irado para tentar impor seu idealismo terrivelmente agressivo.   

O Jessenismo difere do Yazidismo porque tem um tom dualista moderado, identificando-se, em alguns pontos, com o dualismo absoluto. Nesse sentido, não se identifica com a totalidade do simbolismo e idealismo esotérico daquela corrente de saber oriental, em particular com algumas descrições de Melek Taus como Shaytan. Temos o Yazidismo como uma corrente gnóstica que retirou seu idealismo religioso dos ramos da Gnosis antiga; e sentimo-nos perto do povo yazidi não porque somos conscientes das diferenças entre as nossas crenças, mas porque somos irmãos em uma mesma e única Gnosis Universal, pelo que nos inclinamos, com alegria, para nossas semelhanças e permitimos que elas complementem e enriqueçam o Jessenismo. 

Nas semelhanças ou diferenças entre a doutrina jessênia e a yazidi, não há, em absoluto, nenhum luciferismo, nenhum ponto a ser repudiado em nome de uma “verdade bíblica irrefutável”. A violência com que se julga o povo yazidi é fundamentada na pouca compreensão humana acerca da Verdade, dos níveis em que Ela se manifesta em cada religião. 

O contrário de Gnosis (Conhecimento) é ignorância. É da ignorância humana e da sua pestilenta influência na alma-sangue que surge a concepção de que, em nome de uma “verdade irrefutável”, temos que agredir, vociferar rude e intolerantemente; de que se deve falar de fé em Deus de forma arrogante, violenta, ou aplicar a “justiça” contra hereges, ou aqueles que, segundo deturpada concepção, praticam uma “religião odiosa e nefasta”.

Nós, jessênios, temos profunda convicção de que todas as correntes da Sabedoria Gnóstica do Oriente que tiveram influências maniqueias desejaram a manifestação de uma Gnosis Universal, de um Buda-Síntese (no dizer dos eubiotas). Acreditamos que esse Buda-Síntese tem melhores contornos e expressão filosófica quando se revela de acordo com as marcas dualistas maniqueias nele impressas. Da mesma forma que muitos estudiosos acadêmicos, consideramos que não houve na história do Oriente e do Ocidente nenhum profeta mais expressivo e iluminado que Mani Persa.

Sem a figura de Mani e sem os contornos dualistas da Gnosis Maniqueia nenhum Buda-Síntese pode tornar-se instrumento das poderosas correntes angélicas que trabalham nesta Era de Aquário.

No Maniqueísmo, o Oriente hindu jainista, de natureza dualista, o Budismo e o Vedantismo são filtrados, depurados e encontram com o idealismo de Zoroastro e de Jesus. 

Como religião síntese, o Maniqueísmo e suas expressões como Paulicianismo, Bogomilismo e Catarismo têm seu lado secreto completamente distante dos olhos comuns. Historicamente pode parecer que o Maniqueísmo ficou distante dos Cinco Ritos de Mistérios, porém, basta retornar à Gnosis Valentiniana, ao Evangelho de Tomé e de Filipe, ambos mui amados pelo Maniqueísmo, que acharemos e recuperamos esse lado secreto.

Como os yazidis, nós, jessênios, professamos a ideia da reencarnação, que no Judaísmo é denominada Guilgul (Roda de Nascimentos), nome que traduz muito bem a expressão budista Roda de Samsara.

Em fins de 2013, em uma palestra pública da Comunidade Jessênia, no Rio de Janeiro, uma sufi libanesa falou-nos sobre sua tariqa (ordem sufi), afirmando que ela professava a crença na reencarnação, na Roda de Nascimentos. Esse fato nos leva a crer que os homens se diferenciam pelas estruturas da cabeça e do ventre, mas devem se reconhecer em absoluta semelhança e irmandade pela estrutura única e homogênea que lhes forma o coração.

A humanidade dos tempos atuais padece de um profundo arruinamento psicológico e os sinais estão nas guerras do Oriente, nos assassinos que atiram em multidões, em pais que matam filhos, em filhos que matam pais, nos responsáveis por rituais macabros onde pessoas são mortas (entre elas crianças). Diante disso, o que faremos?

Comecemos por combater a nossa ignorância, no que nos auxilia o presente escrito, e por dar alto valor à busca pela Gnosis, porque outra definição de Gnosis é AMAR, CONHECER, ILUMINAR-SE E RETORNAR AO PARAÍSO, OU SEJA AO MUNDO PERFEITO, CHAMADO PLEROMA.